Resultados ou pessoas?

A resposta não é tão simples quanto gostaríamos.

É antigo e recorrente o dilema apresentado pela contraposição entre o foco em pessoas e o foco em resultados, quando tratamos de gestão empresarial. Entretanto, uma pergunta mais honesta seria: precisa mesmo haver este dilema? Pelo que vejo, é um grande equívoco julgar que uma coisa, necessariamente, anula a outra e que não possam, ao contrário, compor uma única e bem-sucedida estratégia de gestão.

Após quase vinte anos dividindo estudos formais entre ciências administrativas e ciências políticas, pude finalmente entender que dilemas dessa natureza são, muitas vezes, oriundos de uma nefasta influência ideológica, de viés marxista, na construção de uma análise que mistura estratégias de gestão com as complexas dinâmicas das relações humanas e sociais, reduzindo tudo ao dualismo pobre capital X trabalho.

Antes de falarmos sobre empresas, denominadas pessoas jurídicas, precisamos buscar um melhor entendimento daquilo que as constituem, invariavelmente: pessoas físicas. O consultor e escritor Simon Sinek, simplificou essa ideia numa máxima que eu insisto em repetir à exaustão: “100% dos clientes são pessoas. 100% dos empregados são pessoas. Se você não entende de pessoas, você não entende de negócios.”

“100% dos clientes são pessoas. 100% dos empregados são pessoas. Se você não entende de pessoas, você não entende de negócios.” – Simon Sinek

Com a massificação da internet, dos blogues e, posteriormente, das redes sociais, testemunhamos a ascensão daquela que foi chamada de Era da Informação, em sucessão à Era Industrial. O aumento vertiginoso e a universalização do acesso à informação, contudo, não se traduz, necessariamente, à transformação desta em conhecimento, ao contrário, muitas vezes o que se percebe é uma superficialização nos debates sobre os mais diversos temas, com uma decorrente vulgarização de termos e conceitos que passam a ser repetidos e associados a significados distorcidos. Mas onde quero chegar com isso? Vejamos.

Utilitarismo X Egoísmo

A Teoria Ética Utilitarista, conforme concebida por John Stuart Mill, define o utilitarismo como “o princípio segundo o qual toda ação, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função de sua tendência de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela ação. (…) designamos por utilidade a tendência de alguma coisa em alcançar o bem, o belo, a felicidade, as vantagens, etc. O conceito de utilidade não deve ser reduzido ao sentido corrente de modo de vida com um fim imediato.”

“Toda ação, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função de sua tendência de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela ação.” – John Stuart Mill

O utilitarismo em si não é mau nem bom, na realidade, é uma abordagem pragmática sobre o valor intrínseco das ações humanas, a partir de uma perspectiva consequencialista, ou seja, defende que o valor moral de uma ação, depende das suas consequências. Aqui, motivos ou intenções valem muito pouco, pois dizem respeito mais ao caráter individual do agente do que da ação em si.

Ainda segundo a ótica utilitarista, todas as ações humanas têm como objetivo último, a felicidade. Procuramos, em cada uma de nossas ações, viver experiências aprazíveis e prevenir experiências dolorosas. A esta perspectiva, que identifica a felicidade com o prazer, damos o nome de hedonismo. O utilitarismo é, portanto, fundamentalmente hedonista, o que em nada significa que seja egoísta.

A felicidade de que fala o utilitarismo não se resume ao indivíduo que pratica a ação, nem tampouco, serve a um bem maior que suceda às custas da felicidade do agente. Na verdade, há uma equivalência da minha felicidade com a felicidade dos outros, ou seja, não vale tudo para ser feliz, não vale ser feliz promovendo a infelicidade das outras pessoas, não restringindo “outras pessoas” apenas ao grupo das pessoas de quem mais gostamos, como familiares e amigos, por exemplo. De acordo com Mill, devemos ser estritamente imparciais.

O egoísta é parcial. Age de forma a promover unicamente a própria felicidade. Não importa se, para alcançá-la, outros serão sacrificados. O egocentrismo o convence de que a única forma de ter valor é sendo melhor que, tendo mais do que, todos, em todos os lugares, sempre. Lhe diz ainda que trapaceie, porque o importante é ser feliz. Cega o indivíduo para o que já tem e instiga a cobiça para o que ainda não tem. O egoísmo conduz à arrogância, afasta a humildade e, assim, enfraquece a conexão com os outros, deteriorando suas relações pessoais e profissionais.

O utilitarista, ao contrário, é imparcial. Suas ações buscam promover a felicidade de todos os que, por ela, são afetados. Os interesses de todas as pessoas implicadas pela ação são considerados, sendo o interesse de cada pessoa, a obtenção de felicidade e bem-estar.

Chamando Maslow ao debate. E também alguns amigos.

A Hierarquia de Necessidades de Maslow é uma das mais conhecidas e principais formas de entender a motivação humana. De acordo com essa teoria, os indivíduos precisam satisfazer primeiramente suas necessidades de nível mais baixo para, somente então, avançarem para as dos níveis acima, havendo ao todo cinco níveis, hierarquizados e organizados na forma da famosa pirâmide.

Quando uma pessoa não tem suas necessidades satisfeitas, seu comportamento é afetado de maneira negativa, deixando-a desmotivada e improdutiva. Empresas que levam isso em consideração, por exemplo, ao posicionar seus funcionários de uma maneira em que suas forças e talentos sejam melhores aproveitados e, consequentemente, os tornem mais satisfeitos, aumentam as chances de que estes produzam melhores resultados e prosperem junto à empresa.

Preocupar-se e ocupar-se com a motivação dos funcionários são responsabilidades das empresas e quando falamos sobre motivação, não nos limitamos a falar apenas em salários e compensações financeiras que forneçam condições mínimas para sua sobrevivência, mas também, de oportunidades de crescimento, qualidade, estabilidade e segurança no ambiente de trabalho, sentir-se integrante efetivo de seu time e da organização, etc. Sem isso, os indivíduos se sentirão frustrados e não darão o seu melhor na busca por produzirem resultados extraordinários para a empresa.

Os estudos de Peter Senge, indicaram que as companhias bem-sucedidas eram aquelas que estimulavam continuamente a capacidade das pessoas de gerarem os resultados que elas realmente desejam, com novos padrões de pensamento, liberdade para uma aspiração coletiva e onde os indivíduos aprendessem a ver o todo conjuntamente.

De acordo com Marcus Buckingham, do Instituto Gallup, “para o empregado médio, os seus líderes são mais importantes até mesmo do que as empresas para as quais trabalham. As companhias que buscam lucratividade, produtividade e satisfação dos clientes, devem apoiá-los, deixando-os fazer o que quer que julguem ser o melhor junto às suas equipes.” Somente é possível constituir relações sustentáveis nas organizações se houver um genuíno cuidado da empresa com as pessoas, com sua formação, com o diálogo, diferenciando o olhar coletivo do olhar do indivíduo.

Para Buckingham, as quatro funções básicas de um líder são:

Selecionar pessoas talentosas.

Traçar metas para essas pessoas.

Motivá-las corretamente.

Assegurar de que ocupem a posição adequada.

Um estudo do Instituto Gallup perguntou a mais de 1 milhão e 700 mil funcionários em 101 empresas, de 63 países se eles acreditavam ter “oportunidades de fazer o que fazem de melhor” em suas rotinas. Apenas 20% respondeu que sim. Isso significa que 8 em cada 10 profissionais sentem-se deslocados naquilo que fazem e, por isso, não estão demonstrando sua melhor performance no trabalho.

“8 em cada 10 profissionais sentem-se deslocados naquilo que fazem e, por isso, não estão demonstrando sua melhor performance no trabalho.” – Marcus Buckingham

É preciso entender como motivar as pessoas. Um profissional de baixa performance deve notar que os profissionais mais comprometidos estão recebendo mais e melhores tarefas e que deve se esforçar para melhorar. Por outro lado, um profissional que sabe que está com desempenho inferior e que não se importa em corrigi-lo, é um profissional que, provavelmente, não precisa continuar na equipe.

Afinal, o que importa mais? Resultados ou pessoas?

Numa resposta rápida: resultados! Claro! O mesmo vale tanto para pessoas jurídicas quanto para pessoas físicas. Tudo o que vive sobre a Terra, o faz em busca de resultados. O que muda é que há infinitos métodos e caminhos para se alcançar os resultados almejados e isso faz toda a diferença.

“Tudo o que vive sobre a Terra, o faz em busca de resultados.”

Assim como há empresas capazes de tudo para alcançarem seus objetivos e gerarem maior lucro para os acionistas, mesmo que isso custe a saúde e o bem-estar de seus funcionários, também há funcionários capazes de tudo para obterem ganhos e vantagens pessoais, mesmo que para isso, tenham que recorrer a meios escusos, trapaceando, roubando e prejudicando colegas, subordinados, superiores e, é claro, a própria organização.

Por isso não podemos responder a questões importantes de forma fácil e rápida. Não podemos nivelar pessoas e empresas pelo que há de pior no mercado e na sociedade. Devemos, por outro lado, buscar um melhor entendimento sobre o ser humano, sua natureza, expectativas e relações pessoais e profissionais. Devemos entender que empresas são PESSOAS jurídicas e, assim como as PESSOAS físicas, existem em função da busca por resultados específicos e não há nada de errado nisso. O verdadeiro diferencial está na forma, ou seja, nos métodos empregados para a obtenção dos resultados almejados.

“Empresas são PESSOAS jurídicas e, assim como as PESSOAS físicas, existem em função da busca por resultados específicos e não há nada de errado nisso.”

Muito se tem falado em gerar valor e/ou entregar valor. Isso não se restringe ao interesse dos acionistas e nem aos interesses dos clientes. A geração/entrega de valor deve seguir a ética utilitarista, ou seja, todas as pessoas afetadas pela ação devem ser beneficiadas por ela, da forma mais imparcial possível. Nunca se esqueça de que quando se contrata um profissional, um ser humano vem junto e de que apenas as pessoas tornam os resultados possíveis.

Para finalizar, compartilho as cinco etapas do Caminho da Liderança, de Jack Welch:

Coloque-se no lugar das outras pessoas – importe-se de verdade com as pessoas sob seu comando e entenda o que as motiva.

Pense em si mesmo como o “diretor-geral de significado” da empresa – incorpore palavras e atitudes que ofereçam contexto e propósito para a sua equipe.

Elimine os obstáculos do caminho da sua equipe – livre-se da burocracia e de outros entraves que impedem que eles obtenham resultados.

Seja generoso – ofereça uma ótima recompensa às pessoas que tiveram um ótimo desempenho, seja financeiramente, por meio de promoção ou de elogios.

E, por último, torne o trabalho divertido – crie um ambiente de contentamento e celebração.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/resultados-ou-pessoas-resposta-n%C3%A3o-%C3%A9-t%C3%A3o-simples-quanto-pimenta/

Marcus Pimenta

Estrategista Digital Bimodal | Consultor | Professor MBA | Palestrante | Empreendedor

Ipatinga, Minas Gerais, Brasil

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